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Na Rota do Castanheiro e de São Martinho

“Quem quer quentes e boas…quentinhas”, pois é hoje vamos fazer uma viagem entre soutos de castanheiros, não é por acaso que no próximo dia 11 é dia de São Martinho, talvez lhe diga pouco esta data e este Santo, mas para quem foi criado no nosso Portugal, no dia deste Santinho, prova-se a vinho, fazem-se magustos, comem-se as boas castanhas é tempo de feiras de frutos secos e fumeiro.


O castanheiro é uma árvore ao que tudo indica ser originária da China, de acordo com os estudiosos na “matéria” tem a “bonita idade de só, “ 60 milhões de anos, uma espécie “novinha”, talvez mais nova que os dinossauros mas a seu nascimento não deve ser muito mais recente.
Em Portugal, na Serra da Estrela, foram encontrados alguns pedaços fossilizados com milhares de anos, os soutos de castanheiros foram perdendo terreno no nosso País dando lugar ao plantio do pinheiro bravo, mas nas regiões do interior nas terras do Gerês, nas Beiras, mais nas encostas das serras da Estrela, Lousã, Caramulo, Freita, ainda se encontram grandes extensões destas árvores frondosas que teimam em resistir a todas as intempéries e alterações climáticas indo-se adaptando às circunstâncias, algumas delas dos tempos dos descobrimentos.


Durante muitos e muitos anos nas povoações rurais mais pobres, era conhecida pela árvore-do-pão, se na pré-história oficialmente foi a base da alimentação naquele que hoje é Portugal, continuou a sê-lo até ao princípio do século passado, a castanha no seu tempo substituía a batata nas sopas, guisados, quer fresca ou piladas, (secas), que depois eram guardadas e usadas conforme as necessidades, algumas transformadas em farinha, que se juntava a outras como a de milho para fazer a saborosa broa, usando as castanhas poupava-se o milho, as que se encontravam “tocadas ou pecas”, partes castanhas (tocadas) mirradas (pecas) eram para alimento dos porcos, cozidas ou cruas.


Até D. Afonso III em muitos lugares a castanha era tida como moeda de troca, usada para pagamento aos senhores feudais.
Portugal já foi um dos grandes produtores de castanha, mas nos anos 50 do século passado grande parte dos soutos apesar de serem árvores resistentes, foram dizimadas pela doença da tinta e do cancro.
As castanhas nascem protegidas pelos ouriços, quando chega o Outono começam a abrir e a deixar cair os frutos, cada ouriço tem por média três a quatro castanhas, que no mês de Outubro começam a atapetar o chão, é tempo da apanha, em muitos lugares ainda se executa esta tarefa à mão, não é um trabalho “pesado”, mas não é fácil passar o dia inteiro curvado.
A mão-de-obra em alguns lugares começa a ser escassa, não por falta de pessoal, mas porque já não se encontra quem o queira fazer…”parece que as novas gerações querem emprego…não querem trabalho”, que me desculpem aqueles que não concordam, para colmatar a crise da mão-de-obra alguns produtores estão a apostar cada vez mais na mecanização da apanha, o investimento é caro, mas poupa “dores de cabeça”, e evita que o produto se estrague pelo chão.
Hoje vamos dar uma volta por alguns soutos lindíssimos, por algumas feiras famosas onde se vendem as “rainhas” do São Martinho, acompanhadas de outros frutos secos e de muitas iguarias.
O nosso itinerário começa na Terra Fria, Gerês, partimos para Montezinho, começamos a ver azafama dentro dos soutos pintados de tons diferentes de verdes, castanhos que vão do escuro ao quase encarnado, passamos para os lados de Vinhais o cenário repete-se. É o Nordeste Transmontano o grande responsável pela maior parte da produção da castanha em Portugal, são diferentes as qualidades que se encontram por aqui, Judia, longal, Negra entre mais de meia dúzia de variedades.
Em Terras do Bouro aproveitamos o São Martinho, dia de festa onde o fumeiro os frutos secos, nozes, amêndoas, mel e castanhas são reis. O magusto feito na fogueira de caruma e ainda as corridas a cavalo de passo travado, uma modalidade tão a gosto das gentes destes lugares.
Mais feiras e festas dedicadas ao São Martinho encontramos por todo o Portugal desde o Norte ao Sul, umas mais significativas que outras, mas todas elas com grande interesse económico para as localidades, é por aqui em muitos casos que quem vive mais no interior tem oportunidade de poder escolher os tradicionais agasalhos para o inverno que se aproxima, os tradicionais Capotes, Capas, Samarras, Casacões, desde os muitos bons aos pouco mais ou menos, mas sempre quentinhos e que duram para a vida.


Vamos descendo passamos pelo Porto, Aveiro, desviamos para o interior, vamos até à Serra da Estrela, Manteigas, Gouveia, descemos para Oliveira do Hospital, claro como estou a 20Km de distancia com um curto desvio dou um salto à minha terra, Tábua, aproveito a feira, mato saudades de umas boas castanhas assadas a maneira, acompanhadas com uma boa caneca de água-pé feita com uvas Bastardinhas e Touriga Nacional, com um “copinho” de Jeropiga, um bom queijo e não pode faltar o deliciar-me como bom requeijão feito pela maneira antiga ao lume de lenha na panela de ferro de três pernas, continuo a viagem, passo por Santa Comba Dão, Mortágua, entro no Ribatejo e vou até a Golegã, fico naquela que para mim é a melhor e maior feira de São Martinho.
Já por cá andamos a fazer uma visita a esta terra da borda-d’água, terra de terras férteis de gente franca, banhadas pelo Tejo e Almonda, onde os Avieiros vindos de Vieira de Leiria encontraram há mais de 100 anos o seu sustento e ainda hoje por lá estão, alguns continuam a vida dos seus antepassados, outros escolheram novas profissões.


Nunca é de mais passar pela Feira de São Martinho, hoje Feira Nacional do Cavalo Lusitano, por aqui não abundam os enchidos e os presuntos que encontramos no Norte, mas os frutos secos e as castanhas estão em força, hoje o cavalo conseguir ultrapassar as castanhas e a água-pé tão agarradas a este Santo, o nome é que mudou porque a tradição essa já há mais duzentos anos que se mantem.
Com as transformações ao longo dos séculos nos sectores religiosos e políticos nestas terras bem produtivas, não foram só os Avieiros que se fixaram em terras de Saramago, os grandes senhores apaixonados por touros, touradas, arte equestre, encontraram aqui o sítio ideal para a criação do puro-Sangue Lusitano, Luso-Árabe, Sorraia entre outras raças, já no reinado de D. João III a criação de cavalos era por estes lados era importante.


O cavalo foi desde sempre um animal com muito peso na guerra, nos trabalhos agrícolas, nos transportes, eram as máquinas das grandes economias do passado que por estas terras férteis encontraram condições de se desenvolverem, hoje nascem no Ribatejo e vão para todo o Mundo.
Depois de ter passado por terras Ribatejanas, continuamos o nosso “roteiro” até Marvão para saborear mais umas castanhas e, apreciar os bordados feitos com as suas cascas, que mãos hábeis ainda sabem confeccionar, tradição que se perdeu na memória de quando foi o seu começo, hoje são um ex-líbris desta terra do Alto Alentejo.
Continuamos a percorrer e a fazer as honras a São Martinho, vamos à nossa última paragem depois de passar por Estremoz, Tavira, Portimão e subimos um pouco até Castro Marim, mais uma feira onde não é só a castanha a rainha, os figos secos as alfarrobas, para além de tudo quanto fomos encontrando e degustando ao longo de todo o percurso. Encontramos muito entretenimento com muita música, Folclore, Bandas, Fanfarras, Conjuntos, Zés Pereiras, Cabeçudos, Grupos de bombos, um pouco de tudo, bom fumeiro, bom pão, bons queijos, tudo de bom e do melhor para festejar este Santinho que para além de mandar o seu famoso Verão, é Padroeiro dos cavaleiros; soldados; alfaiates; empregados de restaurantes; vinicultores; peleiros e curtidores.
Não são só as castanhas que têm interesse económico a madeira do castanheiro foi e continua a ser uma das mais apreciadas, no passado para a construção das caravelas, hoje na arte da tanoaria, (barris), mobílias, etc..
Espero que tenha gostado tanto ou mais que eu deste passeio de Novembro, por entre soutos com as cores de Outono, festas e feiras com muitos magustos, só faltou dar um salto até às nossas Ilhas, mas por motivos de “transporte”, ficou-se pelo Continente!

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
Passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p’ra casa.
Excerto do homem das castanhas de Carlos do Carmo
Letra – Ary dos Santos
Música – Paulo de Carvalho


Idalina Henriques

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