JornalPelos Caminhos de Portugal

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL – AS VINDIMAS

Ao entrarmos no 10º mês do ano, levamos os nossos leitores a fazerem uma viagem pela Regiões Vinícolas de Portugal, a alguns fazendo, com certeza, lembrar tempos da sua infância, outros nem por isso por só conhecerem esta actividade através dos livros, das fotografias ou do Google.

Outubro era o mês em que a apanha das uvas terminava, começava a meados de Setembro dependendo das regiões e das castas, salvo algumas uvas que eram apanhadas no tardio com o fim de produzirem deliciosos néctares. Com as alterações climáticas, secas de calor intenso fora de época como se diz nas aldeias, a época das vindimas tem sido alterada, em alguns lugares começou no mês de Agosto. De acordo com alguns proprietários que sentem “na pele”, tudo isto, em 25 anos as vindimas adiantaram-se três semanas a um mês, em quase todo o Portugal.


Mas antes de pegarmos na “tesoura”, pôr na cabeça o “chapéu” e partirmos para a “vinha” para apanhar o que ainda por lá ficou, vamos descobrir um pouco da história da vinha e do vinho na nossa terra.
De acordo com os estudos feitos por historiadores nas suas pesquisas parece, sim parece, porque não há certeza, que as primeiras vinhas apareceram muito antes de D. Afonso Henriques nascer, 2.000 anos a.C. nos vales entre o Sado e o Tejo onde por essa altura andavam os Tartessos, Celtas, Iberos, Celtiberos, Fenícios sendo o vinho usado como moeda de troca.
Foi no século II a.C. com a conquista dos Romanos, que a plantação da vinha com novas castas e novas técnicas para a produção do vinho se desenvolveu rapidamente, até por o vinho já não ser suficiente para mandar para Roma, a fim de acudir às necessidades das festas em honra do deus Baco.
Com a reconquista Cristã as lutas foram destruindo vinhas e consequentemente a produção descaiu.
Em 1143, D. Afonso Henriques, enceta a conquista para formar o reino de Portugal como País independente. Volvidos 100 anos o seu trisneto, Afonso III, chega ao Algarve em 1249. A partir daí as Ordens religiosas têm permissão de se estabelecerem em Portugal, o que ajuda muito no desenvolvimento da agricultura que se encontrava mais ou menos destruída pelas guerras sucessivas.
Uma das prioridades das Ordens militares e religiosas foi reimplantar a agricultura. O vinho começou a fazer parte das cerimónias religiosas, o impulso foi grande no plantio da vinha com as diferentes castas introduzidas pelos povos que por aqui foram passando ao longo dos tempos.
Os nossos vinhos vão aos poucos e poucos popularizando-se. Nos séculos XV e XVI, com os Descobrimentos e as viagens marítimas para a India e Brasil, dá-se o grande “boom”. Descobre-se que o vinho da “volta ou da torna” que sobrava das viagens depois de meses e meses a apanhar frio, calor, de ser sacudido pela ondulação nos lastros frágeis das Caravelas, era mais aveludado e apaladado. Logo os especialistas começaram a pensar em novas técnicas para o envelhecerem nas adegas.


Mais tarde, com o tratado de Methuen entre Portugal e a Inglaterra, nos começos do século XVIII, ficou aberta a exportação de vinhos em troca da entrada de tecidos e se com essa abertura o vinho português ficou a ser mais conhecido no mundo também começou a ser adulterado, em particular na região do Douro, o que levou o Marquês de Pombal a criar a Real Companhia Velha supervisionando regiões demarcadas, regras e reformas, algumas das quais muito mal recebidas pelos produtores e vendedores.
No começo de século XIX, as vinhas sofrem grandes revezes com a filoxera, uma das pragas mais destruidoras, que começa no norte e se expande por todo o território, dizimando tudo por onde passava.
Depois desta crise muitos dos produtores ficaram na miséria, mas aos poucos foram-se reerguendo, sendo a Casa Ferreirinha um dos nobres exemplos das que conseguiram seguir em frente graças ao empreendedorismo e coragem de Dona Antónia, sua proprietária, ”arregaçando” as mangas e deitando mãos ao trabalho ajudando ao mesmo tempo outros agricultores.


Com a implantação da República em 1910, foi criada nova regulamentação para o sector e estabelecidas as denominações da origem, como vinhos do Dão, de Colares, Moscatel de Setúbal, Madeira, Acores, Vinho Verde, vinho de mesa, Porto, etc..
Depois de termos viajado pela história da vinha e do vinho é altura de partir para a vinha às primeiras horas da manhã com os primeiros raios de sol a quererem despontar, já preparados com o chapéu de palha, tesoura, cesto, os amigos e familiares reunidos, “até ao lavar dos cestos é vindima”. A apanha das uvas é da responsabilidade dos miúdos, mulheres e mais idosos. Os homens mais novos carregam os cestos de vime cheios de uvas para os carros de bois, carroças a cavalo ou burro, ou tractores dos mais abastados, em tempos mais recentes, assim o terreno o permita, e que rumarão às dornas.
O trabalho de levar e despejar os cestos começa a ser constante uns vão outros vêm é assim até que chegam as 9 horas onde tudo para e toca a saborear a primeira refeição na vinha, o almoço, que o mata-bicho, esse foi ainda em casa logo pelas 5 ou 6 horas da manhã.
Tempo de vindimas é de partilha e de convivência apesar da sua dureza. Após um ano de ausência, as famílias estão reunidas e os avós contam orgulhosos histórias da vinha e às vezes de videiras que atravessaram gerações.


Com o calor a apertar, é tempo para um merecido descanso e ser-se servido o jantar entre a 01 e as 02 horas da tarde. Mais tarde, depois de ter abrandado a “força do calor” retoma-se a tarefa com novo intervalo ao fim da tarde para a merecida merenda, o sol acaba por se pôr e chega ao fim o dia que foi passado a vindimar.
Todos regressam à adega onde há tarefas para serem feitas, a começar por uma das práticas já em desuso, com os homens a saltarem para o lagar dando início à pisa das uvas. São momentos mágicos em que agarrados uns aos outros com os braços por trás das costas formam um só. Hoje olhando para o passado era como se estivessem hipnotizados, obedecendo a uma só voz a marcar o compasso, nas primeiras horas de pisa das uvas. Em muitas casas já existia um esmagador, muito mais rápido e funcional, manejado pelos homens novos da casa embora as últimas uvas tivessem que ser esmagadas a pés, que de acordo com o meu avô “só assim se podia sentir na realidade a magia da videira que deu as uvas” transformadas no néctar que em tempos passados era oferecido aos deuses que adoravam.
Vindima feita, vinho acabado de fermentar posto a limpo nos barris de carvalho que se encontravam já preparados para receberem a nova colheita, depois de alguns dias destapados até acabar toda a fermentação, seguindo-se a seguir todo o procedimento para o seu amadurecimento com qualidade.
Retirado todo o líquido do lagar, chega a altura de se fazer a água-pé e esperar pelo São Martinho com as castanhas, os figos secos, as nozes e as amêndoas, as primeiras honras ao trabalho que foi efectuado por toda a família que se encontra na sua maioria novamente reunida em festa na adega.


Voltando um pouco à altura em que as uvas estavam a ser pisadas, as mais “docinhas”, recolhidas do “mosto” davam origem ao arrobe, um doce tradicional feito do sumo da uva fervido durante muitas horas lentamente, até reduzir a menos de metade o seu volume, em algumas casas juntava-se-lhe maçãs ou peras, ou ambas. Com as uvas seleccionadas também era feita nesta altura a jeropiga, um licor em que a fermentação do mosto é cortada com aguardente de boa qualidade.


A vindima com as suas tradições é a mesma em todos os lugares do nosso Portugal, nos Açores e na Madeira, como tempo de festa e de partilha, ainda hoje revivido com toda a azáfama em algumas adegas que praticam o Enoturismo.
Para si que viveu estes tempos, embora parecendo que foram ontem, já se encontram distantes… Sinceramente… Recordar é viver!..


Idalina Henriques

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