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Os biliões na Arábia Saudita

Nota: Ao ler um artigo de opinião, de Diogo Xavier inserido numa revista da especialidade, não resisti em dividir com o amigo leitor… se é adepto do desporto rei…excertos desse trabalho!
Idalina Henriques
ISTO LEMBRA-ME UMA HISTÓRIA: DE ANGEL DI MARIA A GEORGINA RODRÍGUEZ
A Arábia Saudita é o mais recentes destino exótico para futebolistas que, cansados de serem muito ricos, decidem que está na altura de ficarem muitíssimo mais ricos.
Logo após o Campeonato do Mundo, Cristiano Ronaldo anunciou a sua mudança para a Arábia Saudita, onde veio a representar o Al-Nassr. Os valores envolvidos nessa mudança são pouco menos que astronómicos: milhões e milhões de euros por duas épocas e meia a desempenhar funções de ponta-de-lança e, em simultâneo, de embaixador de um campeonato instantâneo, composto por clubes bilionários, adeptos apanhados desprevenidos e futebolistas em final de carreira emocionalmente motivados pelos milhões que jorram do chão arábico abençoado com a abundância do petróleo. 
Cristiano garante que o campeonato árabe é, já hoje, “um dos mais competitivos do mundo”, e torna-se impossível contradizê-lo, até porque a definição de “competitivo” não tem relação com o significado de “qualidade”. Tanto quanto sei, a primeira divisão distrital de Beja pode ter o campeonato mais competitivo do País, com todas as equipas a um nível em tudo semelhante – se esse nível é mau, péssimo ou terrível, só saberão os adeptos bafejados pela fortuna de poderem acompanhar de perto e atentamente essa extraordinária competição.
Cristiano Ronaldo é só o rosto mais conhecido, a atração principal, o cabeça de cartaz dessa liga que, aos poucos, se vai tornando uma espécie de afronta a quem aprecia o futebol nos seus moldes tradicionais e disputado nos seus habitats naturais. Mas há mais além de Cristiano. Só no último mês, pelo menos mais dois os portugueses juntaram-se ao campeonato árabe para, também eles, darem o seu contributo para a competitividade dessa liga: Jota transferiu-se do Celtic, da Escócia, para o Ittihad, por 29 milhões de euros; Rúben Neves mudou-se do Wolverhampton, de Inglaterra, para o Al-Hilal por 55 milhões de euros. Em ambos os casos, irão ser pagos principescamente, como é óbvio.
E é aqui que se levantam várias questões, primeiro, podemos observar que a Arábia Saudita mudou a estratégia antiga de assediar super craques de classe mundial em final de carreira que, em vez de pendurarem as botas aos 35 anos, aproveitam as ofertas milionárias para cumprir mais uma ou duas épocas em modo quase circense, dispondo-se a entreter milionários árabes caprichosos que são capazes de pagar balúrdios pelo privilégio exclusivo de ver de perto aquele toque de bola, mesmo que não saibam como se designa esse gesto técnico que os encanta. Agora, já não é exatamente assim. Se Ronaldo aceitou mudar-se para a Arábia no limiar de uns respeitáveis 38 anos, tanto Jota (24) como Rúben Neves (26) assinaram as transferências em meados dos seus vintes, muito provavelmente antes de terem atingido cada um o respetivo pico da carreira e decididamente, em qualquer dos casos, ainda com muito para dar ao futebol.
Querer ganhar muito dinheiro é simplesmente legítimo, mas o que é que é muito dinheiro? Um jogador a quem é pago, por exemplo, um salário de 500 mil euros mensais – na Premier League inglesa não é sequer difícil atingirmos estes números, mesmo em equipas mais modestas -, não ganhará “muito dinheiro”  Num exercício simples e rápido, imaginemos um cidadão português que ganhe 120 mil euros por ano, um valor que lhe garante inegável conforto, se pensarmos que o salário médio praticado em Portugal, que ronda os 1400 euros, perfaz um total anual ligeiramente abaixo dos 20 mil euros (contando com os subsídios de férias e de Natal). Portanto, 10 anos de carreira no Wolverhampton equivalem a 50 anos como um profissional que é pago muito acima da média em Portugal, o que desmonta, de certa forma, o argumento – verdadeiro – de que os futebolistas têm uma carreira curta, pelo que devem ser bem pagos (mas não é essa a discussão; a pergunta que se faz é: mas não serão estes futebolistas suficientemente bem pagos, já?).
Nas últimas semanas, tem sido notícia a transferência do argentino Angel Di Maria para o Benfica. É, sem dúvida, um futebolista de classe mundial. Foi, aliás, um dos melhores em campo na final do já mencionado Campeonato do Mundo do Qatar, que consagrou, em dezembro, a Argentina como campeã mundial. As razões que motivaram Di Maria a assinar pelo Benfica não foram, nem tinham de ser, minuciosamente elencadas e explicadas, mas ninguém duvida que o talentoso argentino tenha tomado uma decisão emocional, em detrimento do lado financeiro – e é fácil tomar-se uma decisão emocional quando a suposta perda representa um salário de 200 ou 250 mil euros mensais (ou até mais, os números não foram tornados públicos) na folha salarial. Ou seja, Angel Di Maria abdicou de ganhar muitíssimo dinheiro para ficar a auferir apenas muito dinheiro. Em troca, terá pesado, ao contrário de Cavani, o clima e a gastronomia, o conforto da família e a possibilidade de continuar a jogar na Europa, na Liga dos Campeões, num clube em que garantidamente terá uma multidão fervorosa a apoiá-lo e a puxar por ele
E foi um bocadinho de tudo isto de que abdicaram Cristiano Ronaldo, Rúben Neves e Jota – e muitos outros – ao fazerem as contas num plano meramente financeiro. O caso de Ronaldo intriga-me especialmente, já que se trata do futebolista mais bem pago de sempre (agora, esse título já não é assim tão líquido, uma vez que Lionel Messi – sempre Messi – terá conseguido aquele que é, muito provavelmente, o mais complexo e proveitoso contrato da história do desporto). O que pode fazer com que um bilionário como Ronaldo aceite mudar-se, com a mulher e os filhos, para um país onde, por exemplo, Georgina Rodríguez, sua companheira, tem os seus direitos limitados, quando não mesmo obliterados? É que um futebolista, quando assina um contrato, está a vender muito mais do que os seus préstimos em campo, o seu talento e os golos que marca. Há toda uma vida inevitavelmente em seu redor, uma vez que o futebolista, quando se trata de um futebolista como Ronaldo, concentra em si a atividade, as atenções, as prioridades e o modo de vida de toda uma rede de familiares e amigos que gravitam em torno de si.
Ronaldo, assim como todos os outros que o fizeram, não foi apenas jogar para a Arábia Saudita, porque não se trata de uma peladinha entre amigos ao domingo em que a pessoa vai e joga, e no fim regressa a casa. Ronaldo e os outros mudaram-se com a bagagem, família e restante entourage para um país com severos problemas com direitos humanos, nomeada e principalmente com os direitos das mulheres (as quotas de participação feminina no poder decisório roçam o insignificante; as leis limitam, por exemplo, o acesso das mulheres ao crédito; não qualquer lei que proteja as mulheres da discriminação, ou seja, é legal serem discriminadas; praticamente não existem leis, por exemplo, contra a violência doméstica e de género; a lista podia continuar, mas basta pensarmos nas limitações impostas às mulheres pela ortodoxia de certos países muçulmanos).
Obviamente, não se pode exigir que os jogadores sigam o exemplo de Di Maria, que tomou a sua decisão certamente levado pelo lado emocional, mas seguramente assente no conforto de vários outros ingredientes, incluindo o financeiro. Mas não deixa de ser um pouco triste quando futebolistas que já são muitíssimo ricos e muitíssimo bem pagos acabam por sacrificar tanto a troco de mais dinheiro. Às tantas, e feitas as contas, se calhar nem são assim tão bem pagos.
Diogo Xavier

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